Régis Bittencourt - Mais um motivo de vergonha para o Brasil

Muitos que lêem meu blog sabem que morei em Curitiba por muitos anos, e que ainda tenho um elo muito forte com a cidade (a futura mulher mais linda do mundo mora lá). Bom, como eu trabalho em São Paulo desde 2000, isso significa conviver com a Régis Bittencourt mais do que eu gostaria, seja por terra ou sobrevoando em um avião.

A Régis Bittencourt, que é o trecho da BR-116 que ligaSão Paulo e Curitiba, foi construída em 1961, para comportar um tráfego de 8000 veículos por dia (hoje são cerca de 32000/dia, dos quais 25000 são caminhões). Foi batizada em homenagem a um ex presidente do do DNER. Hoje ela foi rebatizada (extra oficialmente) de rodovia da morte, devido aos constantes acidentes fatais que acontecem em seu trajeto.

Essa fama macabra tem vários componentes, todos conspirando para tornar essa rodovia uma ponto extremamente sensível no tráfego rodoviário brasileiro.

Primeiro, a geografia. O terreno por onde passa a Régis é terrivelmente acidentado, forçando a estrada a ter muitas curvas em declive. Para melhorar, ela atravessa o Vale do Ribeira, região declarada como patrimônio Natural da Humanidade, que abriga 61% da Mata Atlântica restante no Brasil. Por esse motivo, não existe o trecho correspondente da BR101, que deveria ir pelo litoral. Isso faz com que todo o tráfego dos três estados do Sul do Brasil para o Sudeste passem pela BR116, tornando ela, além de um gargalo, um ponto sensível, pois um bloqueio nela pára todo o tráfego rodoviário entre Sul e Sudeste.

Depois disso vêm os ecochatos ecologistas, que não permitem a duplicação do trecho entre Miracatu e Juquitiba, que tem mais ou menos 60km de serra. São constantes os congestionamentos naquela região, quando não ocorre a parada total por conta de algum acidente que interrompe a pista, como aconteceu por quatro vezes essa semana. Eu enfrentei um deles, ficando aproximadamente três horas parado no Domingo passado. O Detran instalou alguns radares para diminuir a velocidade naquela região para 60km/h, mas isso só fez aumentar a arrecadação de multas, e não teve efeito benéfico nenhum.

Depois, aquilo que o povo brasileiro assiste todos os dias, passivamente: a incompetência do governo. Gastou-se um absurdo de dinheiro para duplicar todos os trecho possíveis da estrada (o único trecho não duplicado é esse a que me referi acima), e todo este dinheiro esta se deteriorando, se esburacando e decompondo junto com a estrada. Buracos causam acidentes e defeitos mecânicos nos veículos, e nós pagamos caro pelo direito de andar com nossos veículos nas estradas e ruas no Brasil. Nada mais justo que tenhamos estradas e ruas de qualidade.

Por último, a ganância de algumas pessoas. O trecho entre Barra do Turvo e Campina Grande do Sul é conhecido por seus acidentes inexplicáveis. Muitos comentários se fazem a respeito da ação de guincheiros que derramariam óleo na pista nas curvas para faturarem com os acidentes. Verdade ou mentira? Bom, não se sabe, mas vou dar meu depoimento.

Em outubro do ano passado, saí de São Paulo por volta das 13h em um Celta alugado da Avis. A viagem ia tranqüila, tudo estava normal, até mesmo a chuva fina que caía (porque sempre chove quando estou dirigindo na Régis?). Um pouco após a serra de Barra do Turvo, a uns cinco quilometros da divisa de estado com o Paraná, eu estava a uns 70km/h e entrei em uma curva em declive. Senti a traseira do carro deslizar para fora da curva e segui o procedimento padrão, ou seja, tirar o pé do acelerador e virar o volante para o lado de fora da curva. Pois não adiantou. Quando percebi que não ia controlar o carro, encostei a cabeça no protetor do banco e me preparei para o tranco. O carro virou ao contrário, andou de ré alguns metros e saiu pelo lado esquerdo da pista, completando 270º de giro. Aí bateu em uma pedra e pulou, capotando. Duas voltas. Minha vida passou toda pela frente. Ao fim, o carro parou e eu estava vivo!

Sair do carro foi um problema, fui ajudado por um caminhoneiro e mais alguns motoristas que pararam. Todos preoocupados, achando que eu estava machucado. Na saída, aconteceu meu único ferimento: cortei o dedo no vidro quebrado.

Para encurtar a história: terminei a tarde debaixo de chuva, sentado em cima de minha mala, esperando a Polícia Rodoviária. Bom, enquanto esperava, passa um guincheiro e para. Eu perguntei se era da Avis, ele diz que não, mas que vai até o posto ligar e ver se pode atender pela Avis. Um pouco depois, chega a PR. Começam a fazer o B.O. Aí um deles me diz, sem mais nem menos: a gente pode jurar que não tem óleo nessa pista, isso é pura lenda. Assim, sem eu nem tocar no assunto (tudo que eu queria era sair dali logo). Fiz o B.O. e, quase no fim, volta o guincheiro e adivinhem? Nem precisa, né? Cumprimentou os guardas e os guardas me recomendaram que fosse com ele, porque seria muito ruim eu ficar lá parado, à noite, esperando uma decisão da Avis. Bom, como ele não me cobrou pelo guincho, disse que simplesmente eu tinha que recomendar ele para a Avis, eu fui. Quando finalmente teve sinal no celular, a Avis me ligou e me disse que ele mesmo faria o serviço e me mandou um táxi para me buscar.

Sumário: fui muito bem atendido pelo SAMU, que não me liberou enquanto minha pressão não baixou (a alta estava em 20, isso eu me lembro). Os motoristas de caminhão e de ônibus que pararam na hora, foram sensacionais (gente, muito obrigado, eu estava tão confuso que nem pude agradecer). Agora, os policiais foram muito agressivos, jogando toda a culpa do acidente em mim e nem querendo ouvir minha história. Nõ me ajudaram em nada. O rapaz do guincho fez o que ele devia fazer.

Tirem suas próprias conclusões, mas eu acho que houve muitas coincidências nesta história. Isso ocorreu na véspera do meu aniversário, e como minha amiga Bia disse: alguém me deu uma chance. Nasci de novo, isso é certo.

Será que um dia me livro da Régis? Ou será que um dia a Régis vai ser como a Dutra é hoje?

Amplexos.

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9 Comments

  1. Magá
    Posted Wednesday, 27 June, 2007 at 0:54 | Permalink

    Realmente uma vergonha, piorada pela falta de fiscalização. Alguns diriam que uma privatização melhoraria a situação. Quem sabe?
    Viajando uma sexta-feira à noite para Curitiba com meu amigo Marcelo Rosa (este mesmo, o dos dos amplexos), fui surpreendida por nada mais que um caminhão na contra-mão. Não um gatinho ou uma bicicleta, mas sim, caros amigos, um enorme caminhão.
    Nada demais para uma boa motorista (modesta também, por sinal), se não fosse o fato da neblina intensa e do caminhão estar com o farol baixo. O frio na barriga realmente me chamou a atenção: foi por pouco. Cadê a fiscalização?

  2. Alexandra
    Posted Wednesday, 22 August, 2007 at 16:04 | Permalink

    Isso o que está acontecendo é um absurdo, algo precisa ser feito.A minha familia esta sofrendo muito,com um acidente que aconteceu no dia 15 de julho,foi parecido com o seu mas a gravidade é maior o meu pai teve perda de massa encefalica,e os médicos disseram que ele ficara com seqüelas estamos rezando muito para que ele fique bem do jeito que estava antes do acidente.A minha mãe estava com ele,ela não teve nenhum arranhão.O acidente foi na Barra do Turvo sentido Curitiba,estava chovendo e como todos dizem tinha óleo na pista ele bateu em um guincho que estava parado logo depois de uma curva.No B.O está que o meu pai estava sem o cinto,isto sendo que a minha mãe que tirou o cinto dele após o acidente e o resgate chegou antes da policia,como eles podem dizer isso,e outra,o infeliz motorista do guincho que no momento da batida nem dentro do guincho estava,está la escrito no B.O que ele estava com o cinto.E outra meu marido ligou para a base da policia para saber do documento que o seguro estava pedindo,ai o policial sem mais nem menos passou o telefone para o guincheiro que provocou o acidente,ele ofereceu seu serviço para levar o carro até a oficina da seguradora.Eu pergunto o que é que esse cara estava fazendo na base da policia,e o policial ainda passar o telefone pra ele,sem ninguém ter pedido pra falar com ele.Algo ai tem.

    Alexandra,

    Perdão pela demora em lhe responder. Sinto pelo seu pai, torço muito para que ele fique bem. Foi muita sorte minha realmente eu ter escapado ileso, acho que me deram outra chance.
    Com certeza precisamos mudar esse país, um dia a gente ainda consegue.

    Amplexos.

  3. Eduardo
    Posted Tuesday, 25 September, 2007 at 19:01 | Permalink

    Caro, Marcelo.

    Li seu relato do acidente e fiquei impressionado com a semelhança com o que eu sofri há uma semana. Podia jurar que estava descrevendo o meu acidente, que foi idêntico, a excessão da curva, que me pareceu em aclive. Foi no Km 545. Fiquei indignado, pois ouvi no próprio local do acidente alusões ao fato de os guincheiros jogarem óleo ou água sanitária na pista para torná-la mais escorregadia, gerando assim trabalho para eles. No dia 17 de setembro, 6 carros capotaram (além do meu) apenas durante o tempo em que eu esperava atendimento. Fiquei indignado com o descaso dos policiais. Quando havia um carro capotado, eles ordenavam para que os ajudantes dos guincheiros colocassem cones na pista, para evitar que outros carros colidissem. Enquanto os cones estavam no local, nenhum carro capotava, assim que o carro era retirado, eram também retirados os cones, e pronto: mais 3 carros capotavam. Me parece claro que há, no mínimo, omissão dos policiais, para não dizer conivência. Fiquei estarrecido ao saber que o guincho me cobraria 115 reais para retirar o carro da estrada, fiquei apenas mais tranqüilo quando o guincheiro me garantiu que a seguradora me reembolsaria, o que foi confirmado posteriormente. Pelo que consegui entender da conversar com a seguradora, o taxista que me levou até Florianópolis ganhou 1000 reais pela corrida. Enquanto me dirigia à Florianópolis, fiquei sabendo através do taxista de outros acidentes que aconteceram no mesmo local. Nesse dia, guincheiros e taxistas fizeram muito dinheiro. Daí me pergunto: quantos dias chuvosos e repletos de acidentes como esse acontecem num mês? Quanto dinheiro é feito nessa “indústria” de acidentes? a que custo? Outro fato que me chamou a atenção foi que seguindo instrução da seguradora, perguntei ao taxista se não precisava assinar nenhum papel ao ser deixado em casa, este me informou que não; quando eu insisti, ele disse que não era necessário e que “estava tudo certo”. Mais estranho ainda é que nem corretor, nem seguradora se importaram com isso. Bom, pra terminar a história, e aumentar a minha indignação, depois de uma semana, que foi o tempo necessário para o policial fazer o boletim de ocorrência, noto que no ítem “vestígio de consumo alcóolico”, o policial colocou a opção “sim”. Furioso, fui ao departamento de acidentes da polícia rodoviária federal e fui informado que esse tipo de erro é muito comum, pois que só há duas opções nesse campo, sim e não, e muitas vezes o policial erra. Não foi um, mas 3 policiais (de Santa Catarina e São Paulo) me afirmaram que esse erro é “normal”. O que nos faz concluir que nos boletins de ocorrência da polícia rodoviária federal o “normal” é o erro. E eles nem se envergonham disso. Conclusão, pedi retificação do B.O, coisa que pode demorar meses, e estou aguardando a posição da seguradora.
    Por tudo isso, e por acreditar que nada disso vai mudar se ninguém tomar uma atitude, sugiro que procuremos o maior número de pessoas que sofrem ou sofreram coisa semelhante, e juntos abrirmos uma representação no ministério público federal para averiguação de tais fatos. Se, de fato, pessoas causam acidentes para lucrar com isso, e se tudo é feito com a conivência da polícia rodoviária federal, tudo é possível nesse país.

  4. Marcelo Rosa
    Posted Tuesday, 25 September, 2007 at 22:28 | Permalink

    Eduardo,

    Sinto pelo seu acidente. Essa estrada faz parte da minha vida e me dói muito ver vários e vários governos anunciarem que resolveram o problema, quando ela continua a mesma.

    Nosso problema é muito maior que esse, infelizmente. Mas a gente vai lutando.

    Amplexos.

  5. Eduardo Torres
    Posted Friday, 5 October, 2007 at 23:07 | Permalink

    Marcelo,

    No próximo feriado 12/10/07, terei de andar na Regis pela segunda vez, será a primeira vez que irei até Curitiba de carro. Realmente estou bastante preocupado, não existiria um caminho alternativo?

    Eduardo - São Paulo - SP.

  6. Joao Arcanjo
    Posted Wednesday, 10 October, 2007 at 14:55 | Permalink

    Caminhos alternativos de São Paulo para Curitiba? Só de avião.

  7. luis fernando de oliveira
    Posted Tuesday, 16 October, 2007 at 13:18 | Permalink

    Marcelo, passei por este sulfoco neste ultimo domingo dia 14/10, data esta q eu e minha noiva estamos por considerar como data de nosso novo nascimento, pois na curva estava em baixa velocidade e de-repente minha traseira saiu fomos rodando rodando e o pior caimos em uma ribanceira nosso carro STILO ficou em estado lastimavel… perca total….. e o mais engraçado ninguem viu nossa queda…. somente os guincheiros…… curioso… ne?… pois é GRAÇAS A DEUS ESTAMOS VIVOS!!!!!! MAS ATÉ QUANDO INSTO VAI CONTINUAR………. ATÉ QUANDO….

  8. Renato
    Posted Sunday, 31 August, 2008 at 0:44 | Permalink

    Senhores, existe uma alternativa para fujir da Régis, porém a viagem SP-Curitiba fica mais longa e leva mais tempo.

    Pega a Castelo, e sai itapeninga e pega a estrada até Capão Bonito. Segue em direção a Itararé, e cairá em Ponta Grossa

  9. Roberto
    Posted Sunday, 7 September, 2008 at 21:21 | Permalink

    Pois é, ontém vim de SC para SP, e estava chovendo, logo no começo da serra ainda na BR 101 quando começou a serra ja no Parana antes de chegar em Ctba minha camionete perdeu o controle, como tinha 3 faixas e sem carros atras e na frente, por sorte consegui escapar de um acidente, porém logo na frente vi um carro fora da pista. Ontem fiquei assustado nunca vi tantos carros fora da pista, carro capotado, até desisti de contar.

    Mais pra frente, depois da divisa PR/SP sentido SP, teve mais uma serra, eu estava a 60 - 70 km e novamente perdi o controle da camionete, mas foi pouca coisa, porem logo na frente, tinha um carro parado e umas pessoas do lado de fora olhando para a ribanceira.

    Enfim, isso é um perigo, é incrivel a falta de consideração com a população.

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